Mudar é mesmo necessário?

O potencial das mudanças da vida: as nossas “metamorfoses”

Maristela Couto Psicóloga pela UNESP/Bauru, Especialista em Psicologia do Trânsito pelo CFP, Especialista em Psicodrama Clínico pelo IBAP, Aprimoramento em Psicoterapia Breve Psicanalítica pela UNICAMP, Psicóloga da Saúde Pública desde 2011 – CRP 70673-06.

Dificilmente pensamos em mudança de forma positiva, pelo contrário, temos a tendência a fugir dela, afinal: mudar não é fácil. Mas de acordo com os cientistas do desenvolvimento humano as mudanças são um processo fundamental e que ocorre a vida toda.
Trata-se de um processo contínuo, mas que necessita ser estimulado para que ele aconteça. Apesar de existirem as diferenças individuais, em cada fase da vida existem características peculiares e certas necessidades básicas que precisam ser satisfeitas e certas tarefas desempenhadas para que ocorra um desenvolvimento normal. Dentre estas principais mudanças que nos afetam estão o eu físico (crescimento do corpo e cabelo, capacidades sensoriais, habilidades motoras), cognitivo (aprendizagem, atenção, memória, linguagem, pensamento, raciocínio e criatividade) e psicossocial (emoções, personalidade e relações sociais). Todos estes domínios estão inter-relacionados e cada aspecto de um afeta os outros. Por ex.: quando estamos fisicamente em forma o nosso cérebro funciona melhor, o pensamento é mais lúcido, o humor mais alegre e ficamos menos vulneráveis às doenças.
Todos os processos possuem características e valores únicos e nenhum é mais ou menos importante. Quando ainda bebês além da alimentação, higienização e da proteção de agressores externos, necessitamos de contato humano e afeto para sobreviver – a psicologia já comprovou cientificamente que sem afeto o ser humano morre, mesmo sendo atendidas as demais necessidades. Ainda temos o desenvolvimento da fala, locomoção, autonomia, autoconfiança e ter os limites do comportamento bem estabelecidos para desenvolver a autoconsciência. Na segunda infância ainda temos a escolarização, o autocontrole, a socialização. Na adolescência a busca pela identidade pessoal, sexual e ocupacional. Na vida adulta filhos, pais idosos, nova carreira e mais tardiamente o desafio da perda de capacidades e aposentadoria.

Precisamos passar por todos estes processos?

Segundo os cientistas, sim, pois são estes os fatores que distinguem nossa raça humana e promovem nosso desenvolvimento enquanto tal, e que, por sua vez recebem toda a influência social e ambiental, modificando-nos. Por ex.: a influência da mídia e aplicativos tecnológicos que estimulam habilidades cognitivas específicas em crianças.
Sendo um processo multidimensional (bio-psico-social) e multidirecional (algumas áreas se desenvolvem mais que outras e em várias dimensões ao mesmo tempo) o desenvolvimento humano pode ser melhor compreendido e até “medido” à partir de avaliações neuropsicológicas e também multidisciplinares. Com objetivo de favorecer a prevenção da saúde e elaboração de programas salutares mais efetivos a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu alguns critérios baseados no conceito de qualidade de vida, que leva em consideração as fases do desenvolvimento humano.
Qualidade de vida é o nível das condições básicas que afetam a vida humana e que, portanto envolve o bem estar físico, mental, psicológico, emocional, relacionamentos sociais, família, amigos, saúde, educação. Trata-se de um conceito diferente de padrão de vida, e muitas pessoas costumam confundi-los; já o padrão de vida é uma medida que demostra de forma quantitativa a qualidade e a quantidade de bens e serviços que uma pessoa possui ou tem acesso. Para avaliar este processo a OMS elaborou um questionário para verificar o nível de Qualidade de Vida nos diferentes grupos sociais, disponível para consulta ou baixar em www.maristelacouto.com.br/questionario ou use o QRCODE da página anterior.
A fim de compreendermos a necessidade da mudança em nossa vida não basta estarmos de frente aos nossos dilemas, pois podemos lidar com eles de forma repetitiva durante toda nossa vida. Importante é fazer uma avaliação e direcionar rumos. Hoje, vivemos um momento social que por si só já nos traz muitos questionamentos, onde a palavra crise povoa nossos pensamentos. Refletir sobre como anda nossa qualidade de vida e confrontá-la com nossa filosofia de vida nos ajuda a definir de que maneira estamos construindo nosso sistema de valores e como estamos nos preparando para viver a vida.
Um conceito bastante atual para nos auxiliar no enfrentamento das dificuldades e mudanças é o da resiliência. Termo originado da física, resiliência é a capacidade que um objeto possui de adaptação e ser flexível a deformações sem sofrer danos permanentes. Inserida no contexto psicológico resiliência é a capacidade que possibilita uma pessoa se modificar em resposta a influências ambientais e contextuais, inclusive se fortalecendo com estas influências. Ser resiliente nos deixa menos sensíveis às dificuldades da vida como um término de relacionamento, a morte de um ente querido ou mesmo situações traumáticas, e nos remete a focar em mudanças necessárias, em flexibilizar nosso comportamento.

Treine sua resiliência

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Cuidar de si mesmo física e mentalmente, por exemplo, uma boa noite de sono ajuda a lidar com as dificuldades;
– Ouvir opiniões alheias ajuda a desenvolver novos pontos de vista.
– Manter bom relacionamento com familiares, amigos e pessoas significativas, ajuda a ampliar nosso sentimento de pertencimento e de confiança;
– Tentar ajudar outras pessoas, nos potencializa a resolver os nossos próprios problemas;
– Colocar-se no lugar do outro amplia as perspectivas sobre os problemas;
– Falar sobre o que sentimos ou observamos, ajuda a descrever melhor nossos problemas e por consequência a enxergar as soluções mais rapidamente;
– Tentar resolver os problemas e não culpar apenas o outro, nos traz uma sensação positiva de missão cumprida, elevando nossa autoestima;
– Ter esperança que a vida é generosa, nos traz novas oportunidades e que todos os problemas tem um fim;
– Fazer uma revisão das dificuldades e atitudes tomadas, avaliando-as, não deixando de pensar nas competências já adquiridas.
– Busque ajuda sempre que sentir-se despreparado. O psicólogo é um profissional capacitado para ajudá-lo nesse processo.